terça-feira, 17 de julho de 2007

cura

Falei sobre a aceitação e agora acho que subi um degrauzinho, ou é a ansiedade, que não me permite esperar a cura pela aceitação, nesse caso, desci alguns. Já disse que sou diretiva, mas nesse ponto me aceito como tal. Então, resolvi que estou em processo de cura, total e irrestrita, se é que isso é possível. Resolvi começar pelo coração (cor, prefixo com o qual também começa coragem). Curar o coração. Como? Exatamente não sei. Mas estou em tratamento. Quem me trata? Outra auto-indagação. Eu me trato. Ou não. Relativismo (será essa a única certeza? A relatividade einsteniana?). Uma certeza tenho, a cura é questão de tempo, afinal, acredito, ainda que com restrições, nas teorias evolucionistas, não na biologia, mas na questão emocional e espiritual. Logo evoluo, logo me curo. Coração doente, relações doentias; coração puro, auto-amor, relações saudáveis. Trata-se disso e está na mira.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Eu aceito

Não, não se trata de "sim" a um pedido de casamento, em que pese terem pensado alguns no msn. Trata-se de uma questão há muito sendo digerida, pensada, sofrida, enfim. E resolvi que é isso, eu aceito. Por enquanto, melhor seria se eu pudesse dizer, aceito e compreendo. Mas, por hora, aceito. Eu aceito que a minha vida mudou, que se postou uma encruzilhada diante de mim. Aceito que as decisões dos outros me afetaram e promoveram essa mudança. Vale o que restou, eu cresci, aumentei e isso, ao fim e ao cabo, foi bom. E como diz a mestra Sangit, aceeeeite. E eu aceito. Sei que por hora é decisão da razão, mas é um começo. É o vislumbre do mestre, no longe, mas vindo. Eu aceito que tenho uma vida diferente da que tinha sonhado. Eu aceito que depende de meus cuidados exclusivos o ser mais importante da minha vida. Eu aceito que ela não vai ter todo o sonhado (e aí penso, com que direito sonhei por ela?). Eu aceito que a tristeza à vezes volta e que tenho que olhar pra ela, conselhos de Wangmo. Eu aceito que atraio atenções e que nem sempre restam positivas. E por aí vai. Aceito o que as pessoas pensam sobre mim, é delas. Nessa fase, aceito apenas, não projeto, vou deixar isso pra depois. Quero abrir um imenso vazio diante de mim, sem expectativas. Vamos ver o que a vida, o universo, o acaso, ou algo que o valha, me reservam. Sei que isso não dura, sou diretiva demais pra me deixar levar pelo que quer que seja. Mas agora eu aceito. Quando fui tomada por essa decisão, perdemos uma pessoa da família. A dor, o desalento. Não há outra posição diante da morte, apenas aceitar. Menor a dor da perda do que a da quebra da confiança, é uma dor confortante. E eu aceito que posso, muitas coisas, nem sabidas, e que meus medos são menores infinitamente que a minha coragem. Aceito, com a serenidade de quem renuncia à luta.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

ainda a crisálida

Cansativo? Acho que não, pelo menos pra mim e por enquanto. Refleti sobre a crisálida, o casulo, a casa, depois de aula com meus alunos da graduação. Falávamos de Bachelard e a metáfora dos espaços habitados. A casa. Para Bachelard a memória se refugia nos espaços, se abriga neles. Assim, lembramos de muitos fatos de nosso passado a partir de onde estávamos e o ambiente mais vivido era a casa. Após atividade de retorno imaginativo à casa da infância, muitos acessaram memórias, medos, alegrias, saudades, seres. Um experiência única para eles e para mim também. Sempre que proponho uma atividade em um grupo, fica reverberando em mim, por algum tempo. Bachelard também fala que a casa é nosso abrigo supremo, pois abriga o sono, no qual estamos mais vulneráveis, e os sonhos. A casa é onírica, abriga o devaneio, abriga o sonhador. Casa... Pensei nisso por um tempo e me vi "enfeitando nosso barraco" (como diria Ana Carolina) em um passado recente. Enfeitava e tentava aquecer, ah quanto frio passado lá dentro! Até usei o vermelho para torná-la mais afetiva, mas era o que era, uma casa fria, sem afeto, sem calor, como era a vida então. Mas eu a amava e amava aquela vida sem-sentir. É fato, não havia um sentir pleno, quente. E ainda passei um tempo, tentando permanecer naquele casulo, frio, mas conhecido; sofrido, mas onde eu me movimentava de olhos fechados. Hoje, novo casulo, meu, meio precário, mas humano, cheio de sentidos e quente... se aquece com pouca energia e se mantém aquecido. Metáfora? Não sei, talvez mera constatação. O que sei é que gastava muita energia em um ambiente que não tinha condições de se aquecer, inaquecível, se me perdoam a palavra.
Porém, na minha crisálida nova, tenho algumas restrições: aqui só recebo quem eu quero. Não adianta vir à porta e se esgueirar, além disso, não há nada a ser visto aqui dentro, além de uma mulher tentando se encontrar e manter um ambiente de afeto para sua pequena família. Culpados ou inocentes, adentrar no meu recanto onírico, só com minha vontade. Quem sabe um dia? Mas agora, não.

terça-feira, 29 de maio de 2007

vontade

De repente me deu vontade de escrever... será prenúncio da saída da crisálida? Acho que não, apenas vontade de dizer das sensações - reino dos deuses, ilusório, diria a Vanessa. Sei lá, mas sentir é algo que faz parte do humano, eis que mesmo a ciência tem por base a sensação, a percepção através dos sentidos. E o não-sentir o que é? Penso que possa ser um não-viver (não estranhem, ando às voltas com a fenomeonologia e me pego escrevendo desse jeito maluco). Pois bem, não-sentir é não-viver. É fugir das sensações, de Afrodite, do belo, essas coisas. Como dizia minha professora de escultura, é fugir da estesia (adoro a expressão "tive um porre estésico"). E por que fugimos e nos refugiamos no não-viver? Medo, insegurança, ou pode ser apenas um desconhecimento do que seja sentir de fato, com todas as forças dos nossos sentidos, os cinco e mais uns outros que a gente nem sabe que existem, eu pelo menos.
Pois é, estou aí, me inagurando no reino das sensações. Ilusão? Pode ser, não me importo em me iludir com o momentâneo, pelo menos por enquanto. Prefiro isso ao não-vivido.
Um beijo aos meus poucos e selecionados leitores, aos demais: decifrem-me....

quarta-feira, 23 de maio de 2007

melhoras

Como tive três comentários na minha última postagem, resolvi escrever... sinal que alguém lê, logo pressupõe autorização para devanear.

E escrevo daqui, da crisálida, acho que, ainda saindo dela, sempre a terei como referência, lugar de retorno, eterno, pero não constante, no futuro, digo.

A crisálida se reveste de cores, ainda que lá fora se prenuncie o inverno. Explico: poesia... quem não se rende? E tenho me deleitado com ela. Seja descobrindo novos e pops poetas, leia-se Ana Carolina, que sempre impliquei, eis que descobri mais poeta que cantora. Seja o Quintaninha, como dizia Bandeira "não são, Quintana, cantares. São, Quintana, quintanares...", na linguagem do teatro, em bela peça. Adorei o "nasci, e acho que foi a coisa mais importante que me aconteceu". Belas surpresas que a minha pequena cidade reserva, ainda que muito esporadicamente. Também a possibilidade de rever velhos sonhadores, contatos de outras eras, poetas também de atitudes. E Saramago, de corpo presente na minha sala em entrevista à televisão. Reclamando da censura ao seu Evangelho em Portugal, me fez ver a posição de um aluno que produziu o poético rap do "Jesus negão, Jesus negão" (Jesus é o cara, é muito legalzão e só não veio hoje, porque tá pregadão, Jesus negão, Jesus negão) o que causou um certo receio de expor em escola católica. Ainda, né? Quem imaginaria, em tempos de liberdade e democracia. Enfim, a poesia liberta e vivas ao meu aluno querido...

E sigo descobrindo vãos, frestas, onde a poesia se infiltra e espia, retomo cds que já não tinha mais e novoas, frutos de escolhas agora conscientes, filmes, até o Dumbo da Disney, que eu assisto empolgada, enquanto minha filha diz: "não qué fante, não qué fante"...



Da crisálida, em paz. E esperando que mais se rendam à poesia, à estesia e reinventem-se... Quem sabe?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

lagarta

Já que não consigo romper a crisálida, ainda que sem consciência, tenho retomado as questões anteriores. Melhor entendido, não me sei borboleta, portanto sou compelida a refletir sobre a lagarta. E aí? Exercício sobre a sombra, no verdadeiro sentido junguiano: a Sombra, que mete medo, pedaços incompreendidos e negados de nós mesmos. Pois bem, metáfora de um animal que jamais eu seria... nenhum vem à cabeça. Vazio. De repente brota ela, horrenda, nauseante: a lagarta, aquela que a gente criança chamava de bicho cabeludo e que amendrontava meus piores pesadelos. Suas características? repulsiva, feia, nojenta, amedrontadora. Essa seria a sombra, aquilo que não quero mais, a negação, o "não sou" que me constitui. E agora? é dessa lagarta que quero me liberar, que espero a transformação, num vôo delicado de frágil e bela borboleta? A quem eu metia medo, dava nojo? Quem me lia pela sombra? Ou ainda me lê? Por que passava essa imagem? A minha lagarta já não tinha os pêlos, já não agredia tanto, mas enojava, era lerda, dependente. O que eu considero a pior coisa num ser, a lerdeza, a imobilidade, a dependência. Isso também eu sou. A solução? Aceitação dessas "qualidades", compreensão, conexão, nunca a exclusão, a negação, isso poderia gerar um ataque da sombra (como acontece em muitos casos, vide massacre na universidade da Virgínia). Bem, rendo-me a Jung e sigo crendo nos seus arquétipos, principalmente daqueles que falam da transformação. Por enquanto, aceito a lagarta, mas ainda não sou borboleta.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

espiada

Dei uma espiada para fora da crisálida. Foi incrível. Olhar pra fora, sabendo que estava protegida pela película. Foi uma experiência nova, assustadoramente nova. Aula de teatro, criação de personagem, até aí tudo bem. Afinal foi uma das formas que, creio, pode me levar pra fora. Mas o desafio estava por vir, o personagem tinha que sair na rua, interagir. E aí? Uma louca cheia de carências e negações, viciada em remédios, que eu tinha criado e que emprestava a vida. E eu que me acreditava tímida e incapaz de erguer os olhos em algumas situações, fiz, dei um corpo à Dalva, louca. E agora, que sei que sou capaz? Que medo, credo. Agora não sei mais quem sou, não sou tímida, sou capaz de coisas que não sabia que era. Meu Deus, quem ousa desafiar uma mulher dessas? Eu que não...